PARALELOS ENTRE A DIFUSÃO DA BÍBLIA E DO LIVRO DO CÉU – LUISA PICCARRETA


0 LIVRO MAIS LIDO NO MUNDO 

A Bíblia, entre todas as obras do espírito, a mais lida do mundo. O número de seus exemplares pode, apenas, ser conjecturado: um bilhão ou dois, acrescidos, cada ano, de cêrca de dois bilhões. Desde a antigüidade, começou o livro a difundir-se. A his­tória tradicional de Ptolomeu Philadelpho, pedindo ao Sumo Sacer­dote Eleazar que lhe enviasse os setenta e dois melhores doutores de Israel a fim de dotar a biblioteca de Alexandria de uma tradução grega dos livros santos hebreus, tem valor de símbolo, pois que prova a celebridade de que já gozava a obra.

A expansão da Bíblia tor­nou-se mais vasta ainda quando os Cristãos, tendo acrescentado à parte judaica o que continha a suprema revelação trazida por Jesus, contri­buiu para aumentá-la! Foi a Bíblia copiada nos conventos; os gran­des da terra timbraram em possuir-lhe exemplares. Quando Gutem­berg inventou a imprensa, foi da Escritura Sagrada que retirou o pri­meiro texto ao qual aplicou a nova técnica. Em nossos dias, pode-se ler a Bíblia em quase tôdas as língua,  por menos importantes que sejam. Quantas traduções já foram enumeradas? Setecentas e trinta; mil cento e quarenta? Segundo os au­tores, variam os algarismos.

Existe tanto em japonês como em árabe, em bretão como em flamengo e até em esquimó. Poder­-se-ia assinalar o ano de 1817 em que apareceu, pela primeira vez, em língua africana, -era, então, em malgache, – enquanto Morrison produzia a primeira versão chinêsa. A presença dêsse Livro não cessa de difundir-se. No século da “morte de Deus” êste sucesso vem con­firmar-se, afirmando a soberania da Palavra,  dessa Palavra da qual foi dito que ela nunca haveria de passar.

Os CATÓLICOS EM FACE DA BíBLIA

Não é preciso, contudo, confessar que, nesse campo, durante muito tempo, atardaram-se os católicos. Durante cêrca de trezentos anos mantiveram-se ante o Livro dos Livros numa atitude de muita cautela e des­confiança. Tal foi uma das conseqüências da terrível crise que atra­vessou o mundo cristão no decurso do século XVI e da ruptura que assinalou, na marcha dos destinos da Igreja, a revolução protestante. Enquanto, contudo, abrigado no castelo de Wartbourg que o ocultava dos olhos de seus inimigos, empreendia Lutero sua grande obra, a tradução alemã da Bíblia, não é exato dizer-se que todo o catolicismo desinteressava-se dos Livros Santos. Entre a invenção da imprensa, 1450, e êsse ano de 1520, no qual o antigo monge augusti­niano punha-se ao trabalho, cento e cinqüenta e seis edições latinas da Bíblia haviam surgido, e, para não citar senão as do seu país, dezessete versões em língua alemã, não fora, porém, de dúvida que essas publicações eram dirigidas, quase exclusivamente, a especialistas, não tendo o povo a elas acesso.

O Livro “que deveria encontrar-se, noite e dia, entre as mãos dos homens piedosos, jazia, em geral, envolto em poeira”. A decadência simultânea da Bíblia e da Liturgia, desde os fins do século XIII, demasiadamente correspondeu a essa deslocação do ideal de Cristandade, do qual o desenvolvimento do nacionalismo em política, o nominalismo em teologia e a desagregação dos costumes assinalavam outros sintomas. Sem esta decadência, o ataque de Lu­tero não teria tido maior alcance, e seu sucesso não seria aquele que sabemos. Lutero, porém, e, ao lado dêle, os demais “reformadores”, rendido ao Livro a supremacia e repercussão, cometeram o êrro inexpiável de separá-lo da Tradição Católica que lhe havia fornecido o texto e contribuído para elucidá-lo . Tornada  para o homem fonte única de fé e vida espiritual, oferecia a Bíblia à ele o meio de se retirar da Igreja, de sua organização social, da Tradição e da Hierarquia.  A Igreja Católica mediu o perigo dessa quebra na evolução his­tórica da mensagem cristã e dessa individualização da crença. E conforme Vontade Divina, reagiu, então, pelas medidas de proteção que tomou o Concílio de Trento principalmente pela interdição aos fiéis de lerem a Sagrada Escritura nas traduções em língua vulgar que não tivessem sido aprovadas por ela, e não fossem acompanhadas de comentários conforme à Tradição católica. Prudência? Talvez excessiva, como está se repetindo com os Escritos da Serva de Deus Luisa Piccarreta,  e certa influência do jansenismo deram a esta interdição um caráter de rigor absoluto que não possuía.

Tornou-se corrente ouvir-se repetir que “a Bíblia está no Index” e que “um católico não deve ler a Bíblia”. A crise do Modernismo, no início deste século, em que trabalhos, imprudentemente conduzi­dos, puseram em causa a autenticidade da Sagrada Escritura, muito contribuiu também para desenvolver esta desconfiança. Havia nisto, para os católicos, uma grave perda. Como ser ple­namente cristão, cortando-se as próprias raízes que permitiram à fé cristã viver e expandir-se? Foi o grande mérito dos Papas, nestes últimos sessenta anos, o terem medido a amplitude desta perda, e procurado saná-la. Três grandes encíclicas restabeleceram a verdade – e a Bíblia -em seus direitos: “Providentissimus” de Leão XIII, em 1893, ·”Spiritus Paraclitus” de Benedito XV, por ocasião do XV. No centenário de São Jerônimo, em 1920, e a radiosa mensagem de Pio XII, em 1943, “Divino Afflante Spiritu”, que foi ponto de partida do renascimento bíblico atual. Ao mesmo tempo, criadas pela Santa Sé ou encorajadas em


sua fundação, surgiram várias instituições, tais como: a “Comissão Bíblica Pontifícia”, em 1902, que fixa, em ma­téria de Escritura Sagrada, o ensinamento comum da Igreja (1); o Instituto Bíblico Pontifício (jesuíta) e a Escola Bíblica de Jerusa­lém (dominicana). O mosteiro beneditino de São Jerônimo, em Roma, foi investido da tarefa de rever a tradução latina dos Livros Santos, a mais importante, pois que é em latim que os textos sagrados são empregados na liturgia. “Lêde a Bíblia!” diz, portanto, doravante a seus filhos a Igreja Católica. E, em todos os países do mundo em que sua autoridade é reconhecida, considerável esforço realiza-se sob nossos olhos a fim de ser cumprida tal admoestação. Somente na França, seis traduções, uma, velha de sessenta anos mas, desde pouco tempo, re­novada; outra de vinte anos, e ainda quatro bem recentes, – são a partilha de um público, dia a dia mais numeroso. Uma delas patro· cinada pelo Cardeal Lienart, apenas em quatro anos, ultrapassou tre­zentos mil exemplares.

portanto, hoje em dia, bem fácil aos católicos conformarem-se com a ordem do Cânon 1.391, e de somente lerem a Bíblia em edições autorizadas. Quanto ao número de publi­cações consagradas à Bíblia, é de pasmar: cêrca de duzentas obras em língua francesa, só em 1954, e inúmeros artigos. Este esfôrço e tamanho sucesso têm um sentido. Não é mais aos caprichos do livre exame que se acha relegado o texto sagrado. • Transmitido aos fiéis pela própria “Ecclesia Mater”, que o interpreta segundo as lições que vinte séculos acumularam ao fio da Tradição, a Escritura Sagrada retomou seu papel de laço vivo e fonte inexgotável. Ler a Bíblia não é mais lançar-se a uma aventura pessoal, em revolta contra a autoridade, a Tradição, a Hierarquia e os dogmas estabelecidos. É praticar um ato superior de fidelidade e adesão à Santa Igreja, e compreender os meios que Deus se utiliza para reafirmar sua Vontade Divina. Assim, o livro sagrado surge como elemento determinante na opinião fundamental do século XX, entre a fé e a repulsa. Há, doravante uma humanidade que vive da Escritura, do Livro dos Livros, e outra que o repele, porquanto, há uma humanidade que concebe a vida sem Deus e outra que faz dele, como a própria Bíblia, o alfa” e o  omega” de tudo.

Mas uma vez, nos encontramos nesta espera, a Igreja novamente detêm em seu poder, os Escritos mais importantes para o novo tempo profetizado, por muitos de seus profetas.

Estes escritos que nos foram confiados, pela Serva do Senhor Luisa Piccarreta, por ordem autorizada do Arcebispo, a cuja Diocese ela pertence: Corato na Itália, podem dividir-se em três partes.

A primeira é um breve resumo da sua Infância e Juventude, antes que fosse condenada a ficar de cama. Trata-se de um verdadeiro resumo, escrito últimamente por obediência, sem a qual, por nada deste mundo, teria revelado as suas antigas memórias.

Mas, são notícias que revelam como Nosso Senhor a predestinava para coisas sublimes.

Quando recebeu esta obediência, consultou Nosso Senhor e desejaria que lhe fosse afastado este cálice sem que o tivesse de beber.

Todavia, Nosso Senhor apoiou a obediência, e eis como ela se refere a esta questão…

A segunda parte, que compreende os volumes do 1º ao 10º, é formada por Escritos que remontam à sua vida juvenil; e neles se refere o começo das Revelações atribuídas a Nosso Senhor, que a instrui, ao início, sobre as práticas de piedade, a mortificação e o exercício de todas as santas virtudes da Fé, da Esperança, da Caridade, da Humildade, da Pureza, da Obediência, da Mansidão, da constância nas obras de bem, e acerca do Amor Divino e de coisas semelhantes.

Trata-se de lições admiráveis, que revelam um espírito sobre-humano, com características muito simples.

A 3a parte refere-se à finalidade pela qual Nosso Senhor Jesus Cristo quis escolher uma alma, como instrumento da Sua mão omnipotente, plasmá-la à sua maneira e fazer dela um veículo, para manifestar, ao mundo, uma doutrina totalmente nova, que ensina aquilo que quer dizer Vontade Divina e preparar assim o grande triunfo do terceiro Fiat sobre a terra.

O primeiro Fiat criou do nada o Universo .

O segundo Fiat, pronunciado pelos lábios puríssimos da Santíssima Virgem Maria, saudada pelo Anjo, está associada a Encarnação do Verbo Divino no seu Seio puríssimo e por conseguinte a Redenção do gênero humano.

O terceiro Fiat, deixou-o Nosso Senhor Jesus Cristo na grande oração do Pai Nosso, com aquelas palavras divinas: «Fiat Voluntas tua, sicut in Coelo et in terra» (Seja feita a Tua Vontade, assim na terra como no céu).

Esta súplica do terceiro Fiat, que desde há vinte séculos brota dos lábios dos filhos da Santa Igreja, no Sacerdócio real do grande Sacrifício da Santa Missa, apesar de todas as oposições e iniquidades humanas, deve ser cumprida.

Ela não pode deixar de ser ouvida. Todos os Santos, Doutores, Pregadores e Mestres da Teologia ascética decantaram o cumprimento da Vontade de Deus como ápice da perfeição. São reconhecidos três graus: uniformidade com os Quereres  Divinos, conformidade com os mesmos e a transformação, ou seja, o aniquilamento da nossa vontade na Vontade Divina.

Mas, as revelações, que enchem os volumes manuscritos da Autora da Paixão sobre este argumento, têm a característica de uma instrução totalmente nova e celeste, e num modo fácil e persuasivo. As comparações e as semelhanças ilustram de modo admirável esta doutrina ditada, às vezes, com autoridade, ao ponto de fazer recordar a afirmação de São João no Evangelho: «Jesus ensinava com autoridade».

Aos três graus da uniformidade, da conformidade e da transformação, esta nova doutrina acrescenta um quarto grau que sintetiza tudo, e que até agora nunca foi expresso por nenhum escritor, mas que de certa forma já está presente nos Livros Sagrados, especialmente nos Salmos e nas Cartas do Apóstolo das gentes.

Este grau diz respeito a

 operar em tudo na Divina Vontade.

Quando apareceu esta fórmula, pela primeira vez, nos dois pequenos tratados do Relógio da Paixão, para muitos, e podemos dizer até mesmo para todos, pareceu pouco compreensível.

No entanto, algo deveria ser entendido, à primeira vista, considerando a preposição em, articulada ou não, que abre para um leque grande de significados.

O símbolo dos Apóstolos faz-nos dizer: creio em Deus Todo-Poderoso, o que é muito diferente de dizer: creio [que] Deus [é] Todo-Poderoso, ou a Deus Todo-Poderoso.

Depois da leitura do Relógio da Paixão, muitas pessoas pediram explicações acerca do significado de operar e viver na Vontade Divina.

Acreditamos, piedosamente, que estes escritos admiráveis, ditados pelo Verbo Encarnado, conduzem, pouco a pouco, quem os lê, com Fé e amor, à compreensão desta fórmula. De muitos modos, as revelações abrem novos horizontes, até agora nunca contemplados, sobre os mistérios da Divina Vontade e sobre o operar e viver n’Ela.

Uma coisa é certa, mesmo antes de chegar a compreender totalmente o que significa operar e viver no Querer Divino, quem lê estes Escritos não pode deixar de ficar enamorado pela Vontade de Deus, de sentir novos e generosos impulsos, e um grande empenho divino de se transformar totalmente a si mesmo na Vontade Divina.

Estas revelações, direi mesmo, esta ciência da Vontade Divina formará Santos de uma perfeição tão sublime que não existe, até agora, noutros Santos.

Se alguém considerar esta expressão exagerada, convido-o a ler o tratado da Santíssima Virgem Maria, do Beato Luís Grignon de Monfort, onde encontrará uma página, na qual se diz que na Santa Igreja deverão surgir homens de uma Santidade tão grande que comparando os maiores Santos da Igreja, com estes, serão apenas pequenos arbustos diante destas árvores grandiosas.

Estas previsões fazem-nos lembrar a doutrina do livro do teólogo alemão Roleng, livro este que foi traduzido em francês e do francês em italiano, e depois oferecido ao Santo Padre Pio X, que escreveu uma missiva de louvor ao tradutor, elogiando, ao mesmo tempo, os estudos feitos por Roleng sobre a Sagrada Escritura, acerca de eventos futuros.

Será que, então, Deus prepara sempre os seus triunfos universais com triunfos parciais, e no fim realizará o triunfo do Fiat com um só rebanho e um só Pastor?

Ele forjou esta alma desconhecida e transformou-a no seu Querer Divino, de tal forma que da vontade da alma e da de Jesus adorável se formou uma única vontade: a Vontade Divina.

Quem sabe quantas almas se hão de formar com esta doutrina celeste, antes que aconteça o seu triunfo universal!

Referencias:

Daniel-Rops
Edição de 1958 – 131 págs
 
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